Não foram apenas 30 homens. Foi toda uma cultura machista e patriarcal.


Ainda não havia me posicionado referente ao caso da menina violentada por 30 homens, que não satisfeitos ainda divulgaram imagens suas nas redes sociais. Foi difícil tirar um momento do dia para pensar em um texto de repúdio a esse ato. Difícil pois não queria o fazer, difícil pois me faz sangrar uma vez mais, difícil pois gostaríamos de acreditar que não se existem pessoas capazes de cometer tamanha violência, difícil pois as imagens e a dor dela não saem da minha cabeça.
Uma vez mais levantei minha cabeça e decidi externalizar o meu ponto de vista sobre este acontecido. Com todo respeito a vítima e toda a dor que estou sentindo por ela.
Foi um dia difícil para ser mulher, foi um dia difícil para sair de casa e enfrentar o dia com a cabeça firme. Primeiro os jornais nos informam que Alexandre Frota foi recebido pelo Ministro da Educação, trazendo propostas para melhorar nossa realidade educacional, para quem não lembra, Alexandre Frota, estuprador confesso em rede de televisão aberta. Em seguida, um vídeo no celular, de uma menina, 17 anos, 30 homens e muita covardia, muita violência.
Vivemos em uma sociedade forjada em uma cultura machista, patriarcal, sexista e extremamente conservadora.
Nossa irmã não teve seu corpo violentado apenas por aqueles 30 HOMENS, ela foi violentada pela nossa sociedade que não garante sua segurabilidade, ela foi violentada pelas igrejas que impediram em vários lugares de debatermos gênero nas escolas e assim explicar às crianças que cada um tem liberdade sobre seu corpo, ela foi violentada por todos os homens que não entendem o significado da palavra NÃO, foi violentada por todos as pessoas que se calam frente aos casos de violência, violentada pela cultura do estupro, violentada pelo patriarcado, violentada pelos padrões que nós mulheres nascemos designadas a seguir.
Minha cara amiga, você sobreviveu a essa barbárie, você sobreviveu a 30 homens e uma sociedade inteira violentando teu corpo, com você inconsciente e que seguiu te violentando ao longo do dia em comentários ridículos, divulgando suas imagens, te culpabilizando.
Sei que o banho hoje será demorado e sofrido, sei que o espelho agora será um fantasma, a rua será um desafio diário, mas você vai seguir, nós estamos contigo, nós continuaremos em luta, nós somos muitas e estamos juntas.
Agora, nosso dever é intensificar os posicionamentos das mulheres, ocupar as ruas contra esse onda conservadora que nos ataca e quer nos silenciar, agora é que mostramos a força que a mulher tem, jamais nos calaremos frente a violências, pois como já dizia Simone de Beauvoir:
“Querer ser livre é também querer livres os outros.”

Carolina Listone é Diretora de Gênero da UCE e Acadêmica de Letras na Unochapecó

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