Ocupar escolas e consciências


É incontestável que o país vive um momento de polarização e acalorados embates políticos. Opiniões sobre os possíveis caminhos a serem seguidos emergem comprovando que a sociedade não se encontra apática, mas segue seu curso em meio às novas formas de participação política. A ideia de “mesmice” da política cai por terra na medida em que os atores, tradicionais ou não, apresentam características, projetos e visões distintas de sociedade.
Vivenciamos um período de rearranjo da sociedade brasileira, expresso na busca por superar os históricos problemas estruturais e pavimentar os caminhos que nos levarão ao futuro. Para alcançar esse objetivo, precisamos de reformas e novas legislações, mas acima de tudo, uma consciência clara dos rumos e das concepções que conduzirão esse processo.
Em meio a isso, as ocupações que brotam nas escolas e universidades brasileiras são ricas experiências de participação política. Enquanto reinventam a política sonhando reinventar o próprio espaço educacional, politizam-se abrangendo temáticas fundamentais para o desenvolvimento de uma sociedade justa e igualitária. Da defesa intransigente pela educação pública, também se eleva o debate pela igualdade de gênero, a luta contra as opressões, e obviamente qualifica-se o entendimento dos jovens sobre o papel do Estado em nossa democracia.
A polarização mencionada inicialmente é saudável na medida que demonstra o projeto dos setores retrógrados. Seja nas ocupações das escolas, ou das ruas, os estudantes também ocupam a consciência social, problematizando e apontando as contradições das estruturas em nossa sociedade. Uma tarefa árdua, ainda mais quando rejeitar movimentos populares de bandeiras progressistas tem sido a marca que identifica todos os tipos de conservadores.
Quando não ignoradas pela grande mídia, as ocupações são atacadas e desqualificadas por esses partidários, provocando ondas de inverdades e tentativas de deslegitimação. Assim, só nos resta demonstrar solidariedade aos abnegados estudantes que entenderam a necessidade de organização real e defesa intransigente de valores democráticos, compatíveis aos princípios da educação pública.
Flexibilizar o currículo do ensino médio através de medida provisória e colocar em xeque o ensino crítico, questionando a oferta da sociologia e filosofia em detrimento dos valores do mercado de trabalho é apenas a ponta dos questionamentos desses jovens. Percebem também o perigo eminente da PEC 241, que resultará com o fim da dotação orçamentária obrigatória para a Saúde e Educação.
Lutam para que o Estado nacional exerça seu papel de alavanca do desenvolvimento. Estão, acima de tudo, dispostos a defender com unhas e dentes todo ataque ao sistema de bem-estar social que venha colocar em risco as duras conquistas dos últimos anos.

Ocupa tudo!

Eduardo Soares de Lara – Cientista Social formado na Universidade Federal de Santa Catarina, ex-diretor da UCE, atua como professor de sociologia no ensino médio.

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